{"id":92,"date":"2018-10-19T17:12:10","date_gmt":"2018-10-19T16:12:10","guid":{"rendered":"http:\/\/sites.ipleiria.pt\/15historias\/?page_id=92"},"modified":"2019-05-16T16:24:04","modified_gmt":"2019-05-16T15:24:04","slug":"caso-6-comunicar-no-silencio","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/sites.ipleiria.pt\/15historias\/caso-6-comunicar-no-silencio\/","title":{"rendered":"Caso 6: Comunicar no sil\u00eancio"},"content":{"rendered":"\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"179\" height=\"173\" src=\"http:\/\/sites.ipleiria.pt\/15historias\/files\/2019\/03\/img-27.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-518\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n<div class=\"container\">\n<h1 class=\"article-title\">Caso 6: Comunicar no sil\u00eancio<\/h1>\n<div class=\"author-card\">\n<p class=\"author-name\"><strong>Autores:<\/strong> Nat\u00e1lia Tom\u00e1s<sup>1<\/sup> e Renato Coelho<sup>2<\/sup><\/p>\n<p class=\"author-description\"><sup>1<\/sup> Servi\u00e7os de A\u00e7\u00e3o Social, Instituto Polit\u00e9cnico de Leiria<br \/><sup>2<\/sup> Escola Superior de Educa\u00e7\u00e3o e Ci\u00eancias Sociais, Instituto Polit\u00e9cnico de Leiria<\/p>\n<\/div>\n<p class=\"author-reference\"><strong>Referir este caso:\u00a0<\/strong>Coelho, R. &amp; Tom\u00e1s, N. (2018). Comunicar no sil\u00eancio. In R. Cadima, I. Pereira, M. Francisco &amp; S. Cunha (Coords.).\u00a0<em>15 hist\u00f3rias para incluir.<\/em> [Online]. Polit\u00e9cnico de Leiria: Leiria.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container--gray mr-top30 mr-bottom50\">\n<div class=\"container\">\n<h2 class=\"article-subtitle\">Para come\u00e7ar<\/h2>\n<p>As \u201cl\u00ednguas dependem do c\u00e9rebro humano, n\u00e3o do\u00a0ouvido humano\u201d (Stokoe,1960).<\/p>\n<p>Quando pessoas surdas se juntam, naturalmente\u00a0emerge a comunica\u00e7\u00e3o em l\u00edngua gestual, no caso\u00a0portugu\u00eas, a L\u00edngua Gestual Portuguesa (LGP).<\/p>\n<p>Na antiguidade acreditava-se que a fala era fruto do\u00a0pensamento, como tal, a pessoa surda era privada\u00a0de educa\u00e7\u00e3o, sendo mesmo exclu\u00edda, rejeitada ou\u00a0considerada uma criatura transcendente. Em outras\u00a0\u00e9pocas, a surdez era tamb\u00e9m vista como uma\u00a0puni\u00e7\u00e3o dos deuses ou associada \u00e0 feiti\u00e7aria, sendo\u00a0a pessoa surda abandonada ou sacrificada (Lopes, 2012, p.24).<\/p>\n<p>Em Portugal, desde 1997, a LGP \u00e9 reconhecida\u00a0como express\u00e3o cultural e instrumento de acesso\u00a0\u00e0 educa\u00e7\u00e3o e igualdade de oportunidades da\u00a0Comunidade Surda. Gra\u00e7as aos media, a LGP tem ganho visibilidade, estando cada vez mais exposta\u00a0publicamente \u00e0 sociedade em geral e em particular\u00a0\u00e0 comunidade ouvinte.<\/p>\n<p>Esta evolu\u00e7\u00e3o torna o mundo mais esclarecido,\u00a0tolerante e inclusivo. Com o passar do tempo,\u00a0a sociedade que antes combatia direta e\u00a0indiretamente os surdos, percebeu finalmente a\u00a0necessidade de criar escolas espec\u00edficas para a\u00a0popula\u00e7\u00e3o surda bem como de promover a sua\u00a0integra\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"container\">\n<h2 class=\"article-subtitle\">Para ler<\/h2>\n<p>Chamo-me Deolinda Monteiro, tenho 44 anos, sou\u00a0empregada fabril numa f\u00e1brica de bolachas em Alhandra.\u00a0Como eu costumo dizer, pior do que n\u00e3o ter um emprego de\u00a0sonho \u00e9 n\u00e3o ter emprego, por isso, n\u00e3o me queixo da vida\u00a0que por aqui levo.<\/p>\n<p>Em setembro do ano passado foi-me colocado mais um\u00a0desafio, \u00edamos receber, na f\u00e1brica, uma nova colega e a\u00a0ger\u00eancia achou por bem \u201cnomear-me\u201d tutora da novata.\u00a0Tudo bem, eu at\u00e9 gosto de formar a malta mais nova, vou-lhes\u00a0dando umas dicas e orienta\u00e7\u00f5es e costuma correr bem.<\/p>\n<p>Mas&#8230; desta vez era diferente, a colega nunca tinha\u00a0trabalhado numa f\u00e1brica e era surda de nascen\u00e7a, apenas\u00a0\u201cfalava\u201d em l\u00edngua gestual portuguesa. Confesso que fiquei\u00a0assustada, como \u00e9 que eu iria conseguir \u201cconversar\u201d com\u00a0a rapariguinha? Sabia que n\u00e3o podia contar com mais\u00a0ningu\u00e9m da f\u00e1brica&#8230;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container--gray mr-top30 mr-bottom50\">\n<div class=\"container\">\n<h2 class=\"article-subtitle\">Para equacionar<\/h2>\n<p>A Deolinda sentiu-se perdida&#8230;\u00a0uma coisa \u00e9 comunicar com algu\u00e9m\u00a0que fala uma l\u00edngua estrangeira,\u00a0faz-se uns gestos que toda a\u00a0gente entende e consegue-se,\u00a0pelo menos, comunicar coisas b\u00e1sicas. Outra coisa \u00e9 falar com\u00a0algu\u00e9m que n\u00e3o nos ouve e cujos\u00a0gestos que n\u00f3s achamos que\u00a0todos entendem, podem ter outro\u00a0significado numa L\u00edngua Gestual.<\/p>\n<p>Preocupa\u00e7\u00f5es da Deolinda&#8230;<\/p>\n<ul>\n<li>Como comunicar com\u00a0uma pessoa surda<\/li>\n<li>Quanto tempo demora a\u00a0aprender a L\u00edngua Gestual<\/li>\n<li>Comunicar pela escrita\u00a0poder\u00e1 ser a solu\u00e7\u00e3o<\/li>\n<li>Ser\u00e1 que a pessoa surda tem\u00a0alguma limita\u00e7\u00e3o laboral<\/li>\n<li>A institui\u00e7\u00e3o \u00e9 obrigada a\u00a0tomar medidas de integra\u00e7\u00e3o<\/li>\n<\/ul>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"container\">\n<h2 class=\"article-subtitle\">Para debater<\/h2>\n<p class=\"section--subtitle\">1. Quais s\u00e3o as maiores barreiras \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Na sua opini\u00e3o, quais s\u00e3o as grandes barreiras \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o entre pessoas\u00a0ouvintes e pessoas surdas?<\/p>\n<p>Estar\u00e3o as institui\u00e7\u00f5es preparadas para acolher pessoas surdas nas suas equipas?<\/p>\n<p>Conhece alguma estrat\u00e9gia de integra\u00e7\u00e3o bem-sucedida?\u00a0Quais foram as estrat\u00e9gias adotadas?<\/p>\n<p>Pesquise exemplos de boas pr\u00e1ticas.<\/p>\n<p class=\"section--subtitle\">2. Que medidas tomaria se fosse a Deolinda?<\/p>\n<p>Colocando-se no papel da Deolinda o que faria?<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que um curso r\u00e1pido de 1 m\u00eas seria o suficiente para aprender a comunicar em LGP?<\/p>\n<p>Tentar comunicar atrav\u00e9s da escrita ser\u00e1 uma estrat\u00e9gia?<\/p>\n<p class=\"section--subtitle\">3. Est\u00e3o as institui\u00e7\u00f5es preparadas para comunicar com pessoas surdas?<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que os v\u00e1rios servi\u00e7os, nomeadamente os p\u00fablicos, t\u00eam a capacidade de\u00a0comunicar com pessoas surdas?\u00a0O que falta para que a comunica\u00e7\u00e3o seja melhorada?<\/p>\n<p>Qual a forma\/solu\u00e7\u00e3o para que a pessoa surda tenha melhor qualidade de\u00a0acessibilidade aos servi\u00e7os p\u00fablicos?<\/p>\n<p class=\"section--subtitle\">4. Uma pessoa surda tem alguma limita\u00e7\u00e3o laboral?<\/p>\n<p>Que tipo de fun\u00e7\u00f5es a pessoa com surdez n\u00e3o pode assumir?<\/p>\n<p>Pesquise not\u00edcias em que a pessoa surda tenha sucesso na sua fun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<blockquote>\n<p>A pessoa surda pode exercer\u00a0qualquer \u00e1rea profissional,\u00a0uma vez que as dificuldades\u00a0s\u00e3o transversais a todas as\u00a0pessoas. (\u2026) a limita\u00e7\u00e3o laboral\u00a0surge mais da impossibilidade\u00a0ou dificuldade nas quest\u00f5es\u00a0de adapta\u00e7\u00f5es, do que\u00a0propriamente no desempenho\u00a0da pessoa surda.<br \/><cite>Marta Costa<\/cite><\/p>\n<\/blockquote>\n<blockquote>\n<p>As maiores barreiras \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o s\u00e3o de cariz\u00a0f\u00edsico, de cariz sem\u00e2ntico e de cariz psicol\u00f3gico. As\u00a0barreiras f\u00edsicas adv\u00eam das distintas naturezas de\u00a0l\u00ednguas dos interlocutores. Sendo uma oral e outra\u00a0gestual, pressup\u00f5em o uso de canais diferentes.\u00a0As barreiras sem\u00e2nticas est\u00e3o relacionadas\u00a0com a arbitrariedade, propriedade inerente a\u00a0qualquer l\u00edngua natural. Por fim, as barreiras psicol\u00f3gicas parecem, a meu ver, prender-se com o\u00a0desconhecimento, com o preconceito que dele resulta\u00a0e com uma certa despreocupa\u00e7\u00e3o com o outro e com\u00a0as suas respetivas necessidades.<br \/><cite>Joana Querido<\/cite><\/p>\n<\/blockquote>\n<blockquote>\n<p>A verdade \u00e9 que a legisla\u00e7\u00e3o portuguesa contempla vagas na fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica para pessoas com defici\u00eancia (nomeadamente surdez). Mas n\u00e3o \u00e9 menos verdade que Portugal, apesar dos esfor\u00e7os feitos no campo da inclus\u00e3o, ainda n\u00e3o tem int\u00e9rpretes de LPG em todas as organiza\u00e7\u00f5es.<br \/><cite>Gabriela Lima<\/cite><\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<div class=\"container--gray mr-top30 mr-bottom50\">\n<div class=\"container\">\n<h2 class=\"article-subtitle\">Para reter<\/h2>\n<p>Considerando que cada caso \u00e9 um caso e que as solu\u00e7\u00f5es adotadas para uma situa\u00e7\u00e3o poder\u00e3o n\u00e3o ser as indicadas para\u00a0outras, deixamos um poss\u00edvel desfecho, baseado numa situa\u00e7\u00e3o real.<\/p>\n<p>A Deolinda fez uns telefonemas para associa\u00e7\u00f5es, procurou encontrar situa\u00e7\u00f5es similares e trocar impress\u00f5es. A colabora\u00e7\u00e3o\u00a0do Centro Educa\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Jacob Rodrigues Pereira (CEDJRP) &#8211; Centro de Recursos especializado da Casa Pia, foi\u00a0determinante em todo o processo, continuando a manter contacto, de forma peri\u00f3dica, com a equipa de trabalho.<\/p>\n<p>O Centro de Recursos do CEDJRP \u00e9 composto por uma equipa especializada no apoio a pessoas surdas e surdocegas ao\u00a0n\u00edvel do acesso \u00e0 qualifica\u00e7\u00e3o e emprego. \u00c9 uma entidade credenciada pelo Instituto do Emprego e Forma\u00e7\u00e3o Profissional\u00a0(IEFP) desde 2013 e a trabalhar de forma estruturada desde 1989, desenvolvendo um trabalho de articula\u00e7\u00e3o com 24 centros de emprego da Dire\u00e7\u00e3o Regional de Lisboa e Vale do Tejo. A interven\u00e7\u00e3o destina-se somente a pessoas em idade\u00a0ativa. A colabora\u00e7\u00e3o com o CEDJRP tem sido fundamental para esclarecer d\u00favidas, definir novas estrat\u00e9gias, definir novos\u00a0procedimentos, novas tarefas, e claro, superar a desconfian\u00e7a inicial da equipa e da pr\u00f3pria colega surda.<\/p>\n<p>Al\u00e9m desta colabora\u00e7\u00e3o, o trabalho em equipa tem ajudado \u00e0 integra\u00e7\u00e3o e foi-se desenvolvendo uma cumplicidade e esp\u00edrito\u00a0de equipa. Aos poucos aprende-se L\u00edngua Gestual com a nova colega. Cada passo dado com sucesso torna a equipa mais forte,\u00a0mais organizada e mais competente. Com calma e bom senso tudo se vai resolvendo. Hoje, a equipa est\u00e1 mais rica, conta com mais um elemento bem integrado, sempre dispon\u00edvel e que, mesmo no sil\u00eancio que a caracteriza, comunica intensamente\u00a0com o restante grupo.<\/p>\n<p>Acrescenta-se ainda que:<\/p>\n<p>Quanto a limita\u00e7\u00f5es laborais, a pessoa surda n\u00e3o as tem, exceto em situa\u00e7\u00f5es &#8211; como referido no debate \u2013 em que a audi\u00e7\u00e3o\u00a0seja um requisito para o exerc\u00edcio da fun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 prepara\u00e7\u00e3o dos empregadores&#8230; ser\u00e1 subjetiva a resposta, pois tem a ver com a sensibilidade de cada agente para a integra\u00e7\u00e3o do trabalhador, contanto que a pessoa com defici\u00eancia tamb\u00e9m faz parte do mecanismo de integra\u00e7\u00e3o: todos ter\u00e3o de trabalhar para que funcione.<\/p>\n<p>A principal barreira \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 mesmo a atitude que as pessoas apresentam. Aprender a LGP \u00e9 uma \u00f3tima solu\u00e7\u00e3o,\u00a0das melhores at\u00e9, mas n\u00e3o a \u00fanica: a forma como inclu\u00edmos e criamos condi\u00e7\u00f5es para que as pessoas com surdez fa\u00e7am\u00a0parte de um grupo de trabalho &#8211; se sintam membro da equipa &#8211; \u00e9 mais de meio caminho andado para resolver as barreiras da comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"container\">\n<h2 class=\"article-subtitle\">Para consultar<\/h2>\n<p class=\"section--subtitle\">Refer\u00eancias<\/p>\n<p>Lopes, A. P. (2012). A educa\u00e7\u00e3o da pessoa surda. Trabalho de Conclus\u00e3o do Curso de Pedagogia. Universidade Estadual de Maring\u00e1. <a href=\"http:\/\/www.dfe.uem.br\/TCC\/Trabalhos_2012\/ANA_PAULA_LOPES.PDF\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">http:\/\/www.dfe.uem.br\/TCC\/Trabalhos_2012\/ANA_PAULA_LOPES.PDF<\/a><\/p>\n<p>Stokoe, W. C. Sign language structure. Silver Printing: Listok Press, 1960.<\/p>\n<p class=\"section--subtitle\">Sugest\u00f5es de pesquisa<\/p>\n<p>Associa\u00e7\u00e3o Portuguesa de Surdos. <a href=\"http:\/\/www.apsurdos.org.pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">http:\/\/www.apsurdos.org.pt\/<\/a><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Caso 6: Comunicar no sil\u00eancio Autores: Nat\u00e1lia Tom\u00e1s1 e Renato Coelho2 1 Servi\u00e7os de A\u00e7\u00e3o Social, Instituto Polit\u00e9cnico de Leiria2 Escola Superior de Educa\u00e7\u00e3o e Ci\u00eancias Sociais, Instituto Polit\u00e9cnico de Leiria Referir este caso:\u00a0Coelho, R. &amp; Tom\u00e1s, N. (2018). Comunicar no sil\u00eancio. In R. Cadima, I. Pereira, M. Francisco &amp; S. 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