{"id":2290,"date":"2024-04-18T10:54:58","date_gmt":"2024-04-18T10:54:58","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.ipleiria.pt\/pge\/?page_id=2290"},"modified":"2024-04-18T11:16:31","modified_gmt":"2024-04-18T11:16:31","slug":"genero-incluido","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/sites.ipleiria.pt\/gdip\/genero-incluido\/","title":{"rendered":"G\u00e9nero inclu\u00eddo"},"content":{"rendered":"\n<p>A designa\u00e7\u00e3o&nbsp;<strong><strong><span class=\"has-inline-color has-blue-color\">g\u00e9nero inclu\u00eddo<\/span><\/strong><\/strong>&nbsp;refere um g\u00e9nero que ocorre recorrentemente em textos de maior extens\u00e3o e de um outro g\u00e9nero. Por isso, os g\u00e9neros inclu\u00eddos podem ser perspetivados como partes, sec\u00e7\u00f5es, cap\u00edtulos, artigos, etc., de um g\u00e9nero maior, que se situa num n\u00edvel superior (no sentido em que \u00e9 mais extenso e integra um ou mais g\u00e9neros inclu\u00eddos). Exemplos de g\u00e9neros inclu\u00eddos s\u00e3o, entre outros, os cap\u00edtulos ou sec\u00e7\u00f5es de&nbsp;<em>introdu\u00e7\u00e3o<\/em>&nbsp;e de&nbsp;<em>conclus\u00e3o<\/em>, o&nbsp;<em>pref\u00e1cio<\/em>&nbsp;e a&nbsp;<em>apresenta\u00e7\u00e3o<\/em>, o&nbsp;<em>pre\u00e2mbulo<\/em>&nbsp;e o&nbsp;<em>pr\u00f3logo<\/em>, os&nbsp;<em>agradecimentos<\/em>&nbsp;e a&nbsp;<em>dedicat\u00f3ria<\/em>, a&nbsp;<em>nota biogr\u00e1fica<\/em>&nbsp;e o(s)&nbsp;<em>\u00edndice(s)<\/em>, a&nbsp;<em>nota de rodap\u00e9<\/em>&nbsp;e os&nbsp;<em>anexos<\/em>, a&nbsp;<em>entrada de dicion\u00e1rio<\/em>&nbsp;e a&nbsp;<em>ficha t\u00e9cnica<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Cada um dos g\u00e9neros inclu\u00eddos \u00e9, primeiramente, considerado um g\u00e9nero, em virtude de ocorrer reiteradamente numa dada situa\u00e7\u00e3o comunicativa que evidencia propriedades similares e de os respetivos autores o usarem para atingir objetivos inerentes a esse g\u00e9nero. Al\u00e9m desses par\u00e2metros situacionais ou externos, os textos de cada g\u00e9nero inclu\u00eddo manifestam tamb\u00e9m regularidades textuais ou internas, de que s\u00e3o exemplo os tipos de conte\u00fados e os padr\u00f5es de estrutura\u00e7\u00e3o semelhantes, bem como propriedades estil\u00edsticas comuns ou aspetos materiais e peritextuais espec\u00edficos (a nota de rodap\u00e9, por exemplo, consta no fundo da p\u00e1gina, no que se distingue da nota de fim de texto, que \u00e9 inserida ap\u00f3s o texto principal).<\/p>\n\n\n\n<p>A constata\u00e7\u00e3o de que ocorre recorrentemente no seio de textos de outros g\u00e9neros permite comprovar a sua falta de autonomia e, desse modo, o facto de constituir um g\u00e9nero inclu\u00eddo. Em princ\u00edpio, um g\u00e9nero inclu\u00eddo n\u00e3o \u00e9 produzido nem circula isoladamente, ou seja, sem se encontrar integrado num texto que se insere num outro g\u00e9nero.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1, por\u00e9m, v\u00e1rios casos de textos que, constituindo originalmente exemplares de g\u00e9neros inclu\u00eddos, podem conquistar (alguma) autonomia, como a seguir se detalha. Jorge Luis Borges foi um escritor liter\u00e1rio que produziu abundantes textos do g\u00e9nero&nbsp;<em>pr\u00f3logo<\/em>. Na sua origem, cada um deles acompanhava o texto que o autor apresentava ou acerca do qual&nbsp;refletia, isto \u00e9, constitu\u00eda um exemplar de g\u00e9nero inclu\u00eddo. Mais tarde, por decis\u00e3o editorial, muitos dos pr\u00f3logos que redigiu foram englobados numa colet\u00e2nea intitulada, na sua tradu\u00e7\u00e3o portuguesa, \u201cPr\u00f3logos, com um pr\u00f3logo de pr\u00f3logos\u201d. Por essa via, pode dizer-se que cada um dos textos do g\u00e9nero&nbsp;<em>pr\u00f3logo<\/em>&nbsp;que foram integrados na publica\u00e7\u00e3o ganhou autonomia e ocorreu nela j\u00e1 n\u00e3o como um exemplar de g\u00e9nero inclu\u00eddo (ou seja, junto e dependente do texto que originalmente acompanhava), mas como um exemplar de g\u00e9nero aut\u00f3nomo. O mesmo racioc\u00ednio parece ser v\u00e1lido para outros casos semelhantes, em particular, no \u00e2mbito do discurso liter\u00e1rio, como o pref\u00e1cio de E\u00e7a de Queir\u00f3s que antecedia a obra \u201cAzulejos\u201d, do Conde de Arnoso, assim como o pref\u00e1cio de \u201cLyrical Ballads\u201d, de William Wordsworth, entre diversos exemplos poss\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p>Veja-se tamb\u00e9m o caso do&nbsp;<em>abstract<\/em>&nbsp;ou&nbsp;<em>resumo acad\u00e9mico<\/em>. Quando textos deste g\u00e9nero comparecem junto do texto que visam sumariar (em textos dos g\u00e9neros artigo cient\u00edfico, tese de doutoramento e disserta\u00e7\u00e3o de mestrado), configuram um caso de g\u00e9nero inclu\u00eddo. Por\u00e9m, quando se trata de textos produzidos para dar conta de uma pesquisa (a efetuar, em curso ou j\u00e1 conclu\u00edda) relativa a uma proposta de comunica\u00e7\u00e3o a apresentar num evento cient\u00edfico, constituem exemplares de g\u00e9nero aut\u00f3nomo. Nesse sentido, \u00e9 prefer\u00edvel conceber que, entre g\u00e9nero e g\u00e9nero inclu\u00eddo, existe uma rela\u00e7\u00e3o gradu\u00e1vel, e n\u00e3o uma oposi\u00e7\u00e3o bin\u00e1ria ou discreta.<\/p>\n\n\n\n<p>O conceito de g\u00e9nero inclu\u00eddo foi inicialmente proposto por Rastier (1989, 2001), no \u00e2mbito da Sem\u00e2ntica Interpretativa. Insere-se no tema mais vasto das rela\u00e7\u00f5es entre g\u00e9neros, porquanto se verificou que os g\u00e9neros integram complexos sistemas que interagem entre si de modos diversificados (para uma s\u00edntese sobre este assunto, ver Silva, 2020). Nos \u00faltimos anos, em \u00e1reas com tradi\u00e7\u00f5es d\u00edspares, como os Estudos Ret\u00f3ricos dos G\u00e9neros (Devitt, 2004) e o Ingl\u00eas para Fins Acad\u00e9micos (Swales, 2004), v\u00e1rios autores t\u00eam procurado sistematizar tipos de rela\u00e7\u00f5es atestadas entre g\u00e9neros distintos (report\u00f3rio de g\u00e9neros, sistema de g\u00e9neros, padr\u00e3o de chamada e resposta, superg\u00e9nero, metag\u00e9nero, etc.; cf. Devitt, 2004). A rela\u00e7\u00e3o entre g\u00e9nero e g\u00e9nero inclu\u00eddo parece constituir um exemplo a acrescer aos tipos identificados e caracterizados por esses autores (Silva, 2020).<\/p>\n\n\n\n<p>O tema das rela\u00e7\u00f5es entre g\u00e9neros ganhou crescente visibilidade com as perspetivas de an\u00e1lise lingu\u00edstica que convocam, para os estudos dos textos e dos g\u00e9neros textuais, conceptualiza\u00e7\u00f5es de natureza ecol\u00f3gica (Spinuzzi, 2004), como a diversidade, a intera\u00e7\u00e3o, a adapta\u00e7\u00e3o, a permeabilidade, a evolu\u00e7\u00e3o e a interdepend\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, conv\u00e9m sublinhar que o conceito de g\u00e9nero inclu\u00eddo n\u00e3o deve ser confundido com o de subg\u00e9nero. Duas propriedades os distinguem: por um lado, cada subg\u00e9nero \u00e9 um exemplar do g\u00e9nero de que depende (um&nbsp;<em>romance hist\u00f3rico<\/em>&nbsp;\u00e9 um exemplar do g\u00e9nero&nbsp;<em>romance<\/em>), o que n\u00e3o se observa no caso dos g\u00e9neros inclu\u00eddos (a&nbsp;<em>introdu\u00e7\u00e3o&nbsp;<\/em>de um artigo cient\u00edfico n\u00e3o \u00e9 um exemplar do g\u00e9nero&nbsp;<em>artigo cient\u00edfico<\/em>; constitui uma parte ou sec\u00e7\u00e3o de um texto do g\u00e9nero&nbsp;<em>artigo cient\u00edfico<\/em>, mas trata-se de um exemplar do g\u00e9nero&nbsp;<em>introdu\u00e7\u00e3o<\/em>). Por outro lado, a designa\u00e7\u00e3o do g\u00e9nero est\u00e1, regra geral, integrada na etiqueta do subg\u00e9nero (atente-se em&nbsp;<em>romance hist\u00f3rico<\/em>&nbsp;e&nbsp;<em>romance<\/em>, por exemplo), o que n\u00e3o sucede com o g\u00e9nero inclu\u00eddo (<em>introdu\u00e7\u00e3o<\/em>&nbsp;e&nbsp;<em>artigo cient\u00edfico<\/em>).<\/p>\n\n\n\n<p>A descri\u00e7\u00e3o efetuada corresponde aos crit\u00e9rios originalmente propostos no \u00e2mbito da Sem\u00e2ntica Interpretativa (Rastier, 1989, 2001) e reconhecidos como v\u00e1lidos no seio de outros enquadramentos, como a An\u00e1lise do Discurso (Maingueneau, 2014), a Lingu\u00edstica Textual (em particular, a An\u00e1lise Textual dos Discursos, segundo Adam, 2008) e o Interacionismo Sociodiscursivo (Bronckart, 1997). Nesta exposi\u00e7\u00e3o, procurou-se inserir o conceito descrito no \u00e2mbito mais vasto das rela\u00e7\u00f5es entre g\u00e9neros, articulando-se com propostas que s\u00e3o oriundas dos Estudos Ret\u00f3ricos dos G\u00e9neros (Devitt, 2004) e do Ensino de L\u00ednguas para Fins Espec\u00edficos (em particular, o Ensino de Ingl\u00eas para Fins Acad\u00e9micos, segundo Swales, 2004).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Devitt, A.&nbsp;(2004).&nbsp;<em>Writing genres<\/em>.&nbsp;Southern Illinois University.<\/p>\n\n\n\n<p>Rastier, F. (<em>1989<\/em>).&nbsp;<em>Sens et textualit\u00e9<\/em>. Hachette<\/p>\n\n\n\n<p>Rastier, F. (2001).&nbsp;<em>Arts et sciences du texte<\/em>.&nbsp;PUF.<\/p>\n\n\n\n<p>Silva, P. N. (2020). Redes, cadeias, sistemas e report\u00f3rios: Sobre as rela\u00e7\u00f5es entre g\u00e9neros.&nbsp;<em>Lingu\u00edstica (Revista de Estudos Lingu\u00edsticos da Universidade do Porto),<\/em>&nbsp;<em>15,<\/em>&nbsp;95-134.&nbsp;<a href=\"https:\/\/ojs.letras.up.pt\/index.php\/EL\/article\/view\/9477\/8691\">https:\/\/ojs.letras.up.pt\/index.php\/EL\/article\/view\/9477\/8691<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Spinuzzi, C. (2004).&nbsp;<em>Describing assemblages: genre sets, systems, repertoires, and ecologies<\/em>.&nbsp;<em>Computer Writing and Research Lab<\/em>, White Paper Series, #040505-2, University of Texas at Austin, pp. 1-8.&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.dwrl.utexas.edu\/old\/content\/describing-assemblages.html\">https:\/\/www.dwrl.utexas.edu\/old\/content\/describing-assemblages.html<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Swales, J. (2004).&nbsp;<em>Research genres. Explorations and applications<\/em>.&nbsp;Cambridge University Press.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Forma de referencia\u00e7\u00e3o sugerida<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Silva, P. N. (2024). G\u00e9nero inclu\u00eddo. Retirado de:&nbsp;<a href=\"https:\/\/sites.ipleiria.pt\/pge\/genero-incluido\/\">https:\/\/sites.ipleiria.pt\/pge\/genero-incluido\/<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><a href=\"https:\/\/sites.ipleiria.pt\/pge\/generos-academicos\/\" data-type=\"page\" data-id=\"1570\"><strong><br>\u21d0\u00a0<\/strong>(voltar \u00e0 p\u00e1gina Conceitos)<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><a href=\"https:\/\/sites.ipleiria.pt\/pge\/outros-recursos\/\"><strong>\u21d0&nbsp;<\/strong>(voltar \u00e0 p\u00e1gina Recursos gerais)<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A designa\u00e7\u00e3o&nbsp;g\u00e9nero inclu\u00eddo&nbsp;refere um g\u00e9nero que ocorre recorrentemente em textos de maior extens\u00e3o e de um outro g\u00e9nero. 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