Tipo de texto narrativo
Existem diversas classificações textuais que incluem a categoria “narrativo”: em modos literários (ver Modo literário), em géneros (ver Género), em tipos de textos (ver Tipo de texto) e em tipos de sequências textuais (ver Tipo de sequência textual). Nesta entrada, são expostos conteúdos relativos ao tipo de texto narrativo. Os textos deste tipo caracterizam-se pela organização temporal e causal dos conteúdos, com o objetivo de relatar uma sucessão de eventos.
Os tipos de textos são delimitados e caracterizados com base em dois critérios: no mecanismo cognitivo subjacente à seleção e estruturação das ideias manifestadas nos textos e no objetivo sociocomunicativo que o autor/locutor com eles pretende atingir. Deste modo, ao apresentarem uma estruturação que inclui eventos cronologicamente ordenados, os textos narrativos dependem do mecanismo cognitivo de perceção de uma cadeia de acontecimentos no tempo.
Na superfície textual, por um lado, predomina a referência a eventos (e não a estados; cf. Cunha, 2013), os quais se encadeiam numa lógica temporal e causal: um evento origina outros, pelo que as ações ou ocorrências estão conectadas. Por outro lado, são usadas estruturas adverbiais temporais, quer para situar os eventos no tempo (Na semana passada, fui a Coimbra), quer para os localizar uns em relação aos outros (Antes de ir ao cinema, telefonei à Joana), quer, ainda, para indicar a sua duração ou frequência (Quando vivi no Porto, almoçava todos os dias nesse restaurante). Além disso, as formas verbais são frequentemente flexionadas em tempos da esfera do passado, porquanto referem acontecimentos já concluídos (na realidade objetiva ou numa realidade ficcionada): ocorrem, sobretudo, no pretérito perfeito, mas também no pretérito imperfeito e no pretérito mais-que-perfeito (em todos os casos, do modo indicativo). Contudo, há narrativas em que predomina o uso do presente do indicativo, seja com valor de presente atual (como no relato de acontecimento desportivo, em especial, de jogos de futebol), seja com valor de presente histórico (como em narrativas de factos e de figuras ilustres que viveram no passado).
O uso destes mecanismos linguísticos promove a estruturação das ideias segundo uma lógica causal e temporal. Note-se, contudo, que a ordem dos eventos apresentada no texto pode não corresponder à ordem dos eventos tal como se deram na realidade (ficcionada ou não) que é objeto da narração, como o comprovam os casos de analepse e de prolepse. Assim, os dois critérios atrás mencionados que permitem identificar e distinguir o tipo narrativo de outros tipos textuais são inferíveis com base em propriedades diretamente acessíveis nos textos: em alguns mecanismos léxico-gramaticais usados e na estruturação dos conteúdos manifestados.
Considera-se que os textos deste tipo integram, regra geral, segmentos textuais de outros tipos (descritivo, argumentativo, expositivo). Diz-se, por isso, que se trata de textos predominantemente narrativos (e não exclusivamente narrativos), nos quais a organização temporal e causal dos eventos pode ser expandida com descrições, explicações ou justificações. Por exemplo, entre os géneros (ver Género) que incluem textos narrativos, encontram-se, na literatura, o romance, a novela e o conto, sendo a narrativa frequentemente combinada com descrições simbolicamente ricas. Já em géneros jornalísticos, como a notícia e a reportagem, a narrativa tende a ser complementada por descrições objetivas e explicações adequadas ao contexto em causa. Narrativas orais e anedotas, por outro lado, são exemplos em que o relato de eventos visa atingir finalidades de natureza informativa ou humorística.
A conceção exposta corresponde à perspetiva das chamadas Gramáticas Textuais. No âmbito dessa área de investigação, Egon Werlich (1983) propôs uma classificação textual que prevê cinco tipos de textos: narrativo, descritivo, argumentativo, expositivo e instrucional (ver Tipo de texto).
Referências
Cunha, L. F. (2013). Classes aspetuais básicas. In E. B. P. Raposo, M. F. B. Nascimento, M. A. C. Mota, L. Segura, & A. Mendes (Orgs.), Gramática do português (vol. I, pp. 591-604). Fundação Calouste Gulbenkian.
Silva, P. N. (2012). Tipologias textuais. Como classificar textos e sequências. Livraria Almedina/CELGA.
Werlich, E. (1983). A textual grammar of English (2nd ed.). Quelle & Meyer.
Forma de referenciação sugerida
Silva, P. N. (2025). Tipo de texto narrativo. https://sites.ipleiria.pt/pge/texto-narrativo/