Instrução
O género instrução configura-se em textos que orientam um determinado percurso funcional de uma atividade experimental ou de observação e que, desse modo, determinam a forma específica e especializada de a concretizar. Constitui-se, de igual modo, em textos que habilitam alguém para fazer coisas (tendo como referência objetos e lugares) ou para operacionalizar cálculos matemáticos e algoritmos. A sua função social é fornecer diretrizes para desencadear comportamentos, isto é, para levar os leitores ou interlocutores a agirem no mundo de formas particulares, com vista à obtenção de determinados resultados.
A instrução apresenta, então, uma natureza diretiva e pedagógica. Através de uma sequência de ordens, ensina os atores sociais a executarem vários tipos de atividades de acordo com uma determinada estrutura procedimental (é o caso das receitas de culinária e das experiências científicas, por exemplo). Os modos expectáveis de materializar sequencialmente ações requerem níveis específicos de especialização e, por isso, requerem e legitimam esferas de mentoria e monitorização. Estas vozes reguladoras manifestam-se tendencialmente nas culturas na forma de textos verbais, que podem ou não acompanhar demonstrações orais e/ou visuais de procedimentos.
Em termos estruturais, as etapas que organizam discursivamente um texto de natureza instrucional são as seguintes: 1) Objetivo, parte opcional que especifica o propósito da instrução; 2) Equipamento e Material, etapa definidora que elenca os instrumentos, ingredientes, partes constituintes de um objeto e/ou outros elementos necessários para a execução dos processos envolvidos na atividade. Caracteriza-se também pelo uso de terminologia da área de especialização a que o texto se refere; 3) Método, etapa definidora que consiste na apresentação dos passos a seguir para a realização das diferentes fases da atividade. Nesta etapa, os passos a incluir podem ser em número variável e deverão ser organizados segundo uma lógica cronológica, explícita ou implícita no texto. Deverão, além disso, ser introduzidos textualmente através da referência à ação específica a concretizar. Uma dada instrução poderá ainda incorporar a etapa de Resultados, que descreve o comportamento, produto ou objeto que resultará da execução dos procedimentos definidos.
De acordo com o mapeamento de géneros textuais proposto em trabalhos enquadrados na pedagogia da Escola de Sydney, informada pelos pressupostos teóricos da Linguística Sistémico-Funcional, poder-se-ão considerar variações genológicas que decorrem dos contextos e das funções sociocomunicativas de uma dada instrução. Configura-se, assim, para este género, a seguinte classificação: instruções do quotidiano, instruções operacionais, instruções cooperativas, instruções condicionais e instruções técnicas.
As instruções do quotidiano realizam-se em textos orais, escritos e/ou multimodais, em múltiplos contextos comunicativos, e são a forma mais comum de regular e de aprender os comportamentos a adotar no desempenho de atividades especializadas. As instruções exclusivamente orais realizadas em tempo real permitem acompanhar uma atividade de forma síncrona e, por isso, podem servir para monitorizá-la, adaptá-la às circunstâncias efetivas da sua realização e até para corrigi-la, se necessário. Nas instruções que possibilitam um direcionamento de forma assíncrona (em livros e vídeos de receitas, por exemplo), os objetos, os instrumentos e as localizações envolvidos nos processos têm de ser claramente nomeados e a sequências definidas cronologicamente, sem possibilidade de variação temporal.
A receita é um exemplo de género instrucional do quotidiano que tende a efetivar-se multimodalmente, envolvendo três etapas: Objetivo, Apresentação de ingredientes e Método. Os recursos linguísticos usados são comandos de teor imperativo que determinam as ações que devem ser executadas, os recursos a aplicar e a forma particular da sua aplicação (localização, movimento, duração, entre outros aspetos). Estes comandos são frequentemente acompanhados de orações declarativas, classificativas e/ou avaliativas, dependendo da natureza condicional de uma dada atividade, ou seja, se há ou não mais do que uma forma de executá-la e se uma é preferencial.
Uma sequência análoga desenha-se em instruções para realizar experiências e observações científicas em contextos escolares e académicos. Estes textos podem incluir a explicitação do Objetivo, que faz uma previsão do resultado esperado, e envolvem duas etapas definidoras: Equipamento/Materiais e Método. A etapa Método tende a desenvolver-se em fases distintas, assinaladas por processos familiares ao domínio científico (observar, escrever, desenhar, entre outros).
As instruções operacionais configuram-se em contextos especializados para facilitar o uso de máquinas ou em manuais que explicam o uso de equipamento. Estes textos podem contemplar também representações diagramáticas com vetores que assinalam tipos de ações e movimentos, bem como a relação entre eles.
As instruções cooperativas tendem a ser mais complexas, pois explicitam as tarefas a desempenhar pelos atores sociais quando uma atividade é realizada por uma equipa em que cada membro pode ter uma ou mais funções específicas em cada etapa, como acontece em algumas dinâmicas escolares realizadas em grupo ou por diferentes grupos. Nestes casos, os agentes ou as tecnologias usadas nas ações devem ser identificados no início de cada processo. Além disso, depois dos comandos imperativos propriamente ditos, deverão ser explicitadas as razões que justificam a relevância de cada ação.
As instruções condicionais, comuns em manuais de funcionamento de equipamentos ou em suportes textuais que acompanham processos de fabrico, apresentam sequências alternativas de tarefas para concretizar processos e, como tal, introduzem a possibilidade de escolha. As atividades poderão ser numeradas e deverão ser selecionadas de acordo com as condições existentes para a realização de determinado procedimento. Neste subgénero, que pode incluir um fluxograma, está implícito que o leitor conseguirá compreender a complexidade dos processos e imaginar possíveis consequências decorrentes das suas decisões. Este exercício de previsão é relevante em situações de ensino-aprendizagem, pois solicita o entendimento das relações complexas entre fenómenos e eventos e do resultado que estas podem ter circunstancialmente.
As instruções técnicas são usadas em laboratórios de testagem científica, designadamente em atividades que seguem protocolos bem definidos. Na etapa metodológica, guiam procedimentos que são comummente operacionalizados em três fases: preparação de amostra, procedimento técnico e cálculo de resultados. A obtenção, interpretação e registo de resultados serão, então, as finalidades do percurso procedimental a adotar.
No entendimento da LSF, a instrução é um género textual pertencente à família dos géneros informativos e à subfamília dos géneros procedimentais. À subfamília dos procedimentos pertencem ainda os protocolos (regras, avisos, leis), que definem o que se pode ou não fazer em contextos sociais regulamentados, restringindo ou proibindo domínios de ação. Fazem parte da mesma subfamília os relatos de procedimento (relatórios de experiências, por exemplo), cujo propósito, em traços largos, é descrever a forma como se levou a cabo uma atividade de investigação realizada em contexto académico.
Ainda que as considerações aqui tecidas partam de trabalhos desenvolvidos em LSF, outros quadros teóricos fornecem importantes contributos para a compreensão e produção de textos de natureza instrucional. Uma abordagem multidisciplinar promoverá, assim, caminhos possíveis de discussão em torno dos géneros textuais mobilizados em diferentes contextos académicos e/ou profissionais.
Bibliografia
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Forma de referenciação sugerida
Conde, I. (2025). Instrução. https://sites.ipleiria.pt/pge/instrucao/