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Tipo de texto descritivo

Na aceção exposta nesta entrada, “descritivo” corresponde a um tipo de texto que tem como principal objetivo caracterizar um dado objeto – uma pessoa, um animal, uma paisagem, um edifício, etc. Segundo esta conceção, os tipos de textos (ver Tipo de texto) identificam-se com base em duas propriedades: no mecanismo cognitivo envolvido durante a sua produção e no objetivo sociocomunicativo que com eles se pretende atingir. A finalidade de indicar as propriedades e as partes de um objeto é atingida convocando o mecanismo cognitivo relativo à perceção das entidades no espaço.

Contudo, estas propriedades nem sempre são textualmente atestadas. Para as recuperar por inferência, convoca-se duas outras propriedades: a estruturação das ideias manifestadas e alguns mecanismos linguísticos. Nos textos de tipo descritivo, os conteúdos organizam-se espacialmente, em claro contraste com os textos narrativos, que se organizam temporalmente. Dada a lógica espacial subjacente à estruturação dos conteúdos, eles são muitas vezes expostos de acordo com uma ordem que possa conferir lógica ou coerência (ou, pelo menos, que diminua o grau de arbitrariedade com que são referidas as propriedades e as partes do objeto da descrição). Desse modo, adotam-se modelos de estruturação mais ou menos convencionais que concretizam movimentos como “de cima para baixo”, “da esquerda para a direita”, “de fora para dentro”, “do que é geral para o que é específico”, “do que é maior para o que é menor”, “dos traços físicos para os psicológicos” (ou, em todos os casos mencionados, vice-versa), entre diversas outras possibilidades. Com estas formas de organização, o autor do texto descritivo pode alcançar efeitos específicos, motivados pelos objetivos visados no seio da área de atividade socioprofissional em que se insere (literatura, turismo, academia, etc.).

Além da organização espacial dos conteúdos, ocorrem abundantes formas verbais do presente do indicativo ou de pretérito imperfeito do indicativo. A seleção de cada um destes tempos verbais depende de o objeto descrito se localizar temporalmente no presente ou no passado. O uso do presente do indicativo serve, regra geral, para indicar características permanentes ou habituais (A casa tem janelas grandes e uma varanda ampla), mas também pode referir um estado momentâneo (O pavilhão está sobrelotado). Quanto ao pretérito imperfeito do indicativo, ele é escolhido para descrições no passado, podendo referir-se a algo que já não existe ou se modificou (Neste local, havia uma igreja), bem como a ações ou estados habituais (Quando era criança, o Carlos brincava muitas vezes no jardim).

Na conceção adotada, há quase sempre um tipo textual que predomina, entre os cinco previstos na classificação. Por isso, diz-se que um dado texto é predominantemente descritivo, e não exclusivamente descritivo. Aliás, as descrições, mais ou menos extensas, ocorrem frequentemente no seio de textos narrativos ou de outros tipos, e não tanto como textos autónomos. Assim, são atestadas descrições em textos dos géneros romance, novela e conto, bem como em poemas líricos (no âmbito da literatura), nas notícias e nas reportagens (no seio do jornalismo), em biografias e memórias, em retratos e autorretratos, e também em relatos de viagens e em guias turísticos, em manuais de produtos diversos, em anúncios publicitários, etc.

Nos textos literários predominantemente narrativos, por exemplo, os momentos descritivos podem ser inseridos visando alcançar efeitos diversos, como a caracterização das personagens ou a construção de uma determinada cena, enriquecendo o cenário em que ela decorre. Nos poemas líricos, as descrições criam muitas vezes imagens sensoriais inesperadas e daí resultam efeitos estilísticos e simbólicos particulares. Em guias turísticos, com a descrição, pretende-se informar, geralmente de forma precisa e objetiva, acerca do que se pode encontrar num dado monumento ou local da cidade visitada, valorizando elementos patrimoniais ou experiências. Nos anúncios publicitários, descrever tende a contribuir para tornar o produto ou serviço mais apetecível na perspetiva do público-alvo visado. Em suma, dependendo da área de atividade socioprofissional em que emergem, as descrições podem ser mais subjetivas (como na literatura) ou mais objetivas (como em textos com fins utilitários).

A conceção exposta corresponde à perspetiva das chamadas Gramáticas Textuais. No âmbito dessa área de investigação, Egon Werlich (1983) propôs uma classificação textual que prevê cinco tipos de textos: narrativo, descritivo, argumentativo, expositivo e instrucional (ver Tipo de texto).

Referências

Silva, P. N. (2012). Tipologias textuais. Como classificar textos e sequências. Livraria Almedina/CELGA.

Werlich, E. (1983). A textual grammar of English (2nd ed.). Quelle & Meyer.

Forma de referenciação sugerida

Silva, P. N. (2025). Tipo de texto descritivo. https://sites.ipleiria.pt/pge/texto-descritivo/