Tipo de texto
Os tipos de textos configuram uma classificação fechada que incide em textos completos (de maior ou menor extensão) e é constituída por cinco classes: narrativo, descritivo, argumentativo, expositivo e instrucional. De acordo com esta proposta, cada tipo de texto define-se com base em dois critérios: o objetivo sociocomunicativo que o autor pretende atingir e os mecanismos cognitivos que subjazem a cada produção textual. Assim, para reconhecer o tipo em que se insere um texto é necessário identificar o objetivo visado pelo autor e o processo mental por ele convocado. Regra geral, essa identificação processa-se inferencialmente, dado que nem todos os textos explicitam o objetivo visado
O quadro seguinte sistematiza as cinco classes previstas e associa cada tipo aos respetivos objetivos sociocomunicativos e aos mecanismos cognitivos envolvidos.
Tipo de texto | Objetivo comunicativo | Mecanismo cognitivo |
Narrativo | Relatar eventos cronologicamente ordenados | Perceção dos acontecimentos no tempo |
Descritivo | Caracterizar um dado objeto ou entidade | Perceção das entidades no espaço |
Argumentativo | Convencer ou persuadir os destinatários | Avaliação e tomada de posição do autor |
Expositivo | Explicitar informações de modo a fazer compreendê-las | Análise e síntese de representações conceptuais |
Instrucional | Recomendar ou prescrever comportamentos futuros aos destinatários | Organização de comportamentos ou eventos futuros, frequentemente com a ordenação de etapas |
Tal como se sistematiza no quadro, a conjugação dos dois critérios elencados permite distinguir os cinco tipos previstos nesta proposta. Todavia, em conformidade com o que já foi mencionado, nem o objetivo comunicativo, nem o mecanismo cognitivo que a sua produção requer estão geralmente acessíveis nos textos. Eles recuperam-se maioritariamente por inferência, e, para isso, é necessário atentar em duas outras propriedades, estas, sim, textualmente atestadas: a estruturação dos conteúdos e a ocorrência de mecanismos linguísticos específicos.
Veja-se dois exemplos: quanto à estruturação dos conteúdos, os textos narrativos incluem eventos cronologicamente ordenados, o que contrasta com os textos descritivos, que listam propriedades e partes de um dado objeto (uma pessoa, um edifício, uma paisagem, um quadro, etc.) num momento específico. No que diz respeito aos mecanismos linguísticos, os textos narrativos integram preferencialmente verbos de ação flexionados no pretérito perfeito do indicativo, assim como estruturas adverbiais temporais que permitem localizar no tempo os eventos relatados. Já os textos descritivos incluem formas verbais de presente do indicativo (ou do pretérito imperfeito do indicativo, se o objeto descrito se localizar temporalmente no passado) e adjetivos que permitem caracterizar o todo e as partes que são o foco da caracterização. A opção por estes mecanismos (e não por outros) em textos de um dado tipo contribui para concretizar o objetivo comunicativo visado e para lhes conferir uma estruturação textual específica.
Os tipos de textos podem ser perspetivados como categorias que configuram modelos abstratos de estruturação. Saber em que tipo se insere o texto que se pretende produzir contribui para orientar a sua preparação, porque o locutor adota, de forma consciente ou intuitiva, uma organização específica dos conteúdos. Do mesmo modo, reconhecer o tipo em que se insere o texto que se está a ler ou a ouvir facilita a interpretação das ideias manifestadas, porque ativa no leitor/ouvinte expectativas quanto à estruturação textual dos conteúdos e ao objetivo visado pelo autor/locutor.
Embora a classificação incida em textos completos, é importante considerar que eles são geralmente produtos heterogéneos, o que significa que um texto extenso pode integrar segmentos de tipo narrativo, mas também de tipo descritivo, entre muitas outras possibilidades. Esta constatação reflete a complexidade e a fluidez das produções textuais, que, muitas vezes, não se limitam a uma única categoria, incorporando propriedades de mais do que uma classe. Por exemplo, o texto intitulado “Os Maias”, de Eça de Queirós, é globalmente classificado como sendo de tipo narrativo. Todavia, inclui também excertos que são descritivos, argumentativos e expositivos. Assim, deve dizer-se que constitui um texto predominantemente narrativo, e não exclusivamente narrativo. Este exemplo comprova que é conveniente adotar o conceito de dominante e considerar que cada texto inclui quase sempre segmentos que não são de um único tipo. Apesar de nem sempre constituir uma tarefa fácil ou óbvia, em princípio, é possível classificar cada texto como sendo predominantemente de um dado tipo.
É conveniente acrescentar que cada texto pode ser associado a várias classes de classificações textuais distintas. A obra literária “Os Maias” é considerada um romance (quanto ao género) e um texto predominantemente narrativo (quanto ao tipo de texto, porquanto se distingue das classes descritivo, argumentativo, expositivo e instrucional). Mas também constitui um texto narrativo (quanto ao modo literário em que se insere, dado que não se trata nem de um texto dramático, nem de um texto lírico) e um texto em prosa (considerando a oposição entre poesia e prosa, pertinente em textos literários).
Devido à heterogeneidade que caracteriza a maioria dos produtos textuais, o conceito de tipo de texto tem sido objeto de críticas de diversos teorizadores (como Jean-Michel Adam e Jean-Paul Bronckart, entre outros). Contudo, esta classificação parece continuar a ser válida e a ter grande vitalidade, particularmente em contexto didático. A comprová-lo está o facto de as classes narrativo, descritivo, argumentativo, expositivo e instrucional (designando tipos de textos) continuarem a constar de documentos programáticos e de manuais de Português. Por essa via, as classes indicadas são usadas em sala de aula, orientando a organização textual e o uso de mecanismos linguísticos específicos, aplicados aos domínios da leitura e da escrita.
A conceção de tipos de textos exposta corresponde à perspetiva das chamadas Gramáticas Textuais. Foi no âmbito dessa área de investigação que Egon Werlich (1983) propôs classificação em tipos de textos apresentada.
Referência
Silva, P. N. (2012). Tipologias textuais. Como classificar textos e sequências. Livraria Almedina/CELGA.
Werlich, E. (1983). A textual grammar of English (2nd ed.). Quelle & Meyer.
Forma de referenciação sugerida
Silva, P. N. (2025). Tipo de texto. https://sites.ipleiria.pt/pge/tipo-de-texto/